É certo e mais do que sabido que um músico tem que praticar as mesmas passagens vezes sem conta para atingir um ponto de estabilidade e finalmente a perfeição. Contudo a repetição tem um lado perverso, uma vez que com ela a concentração se tende a desvanecer e, se é importante trabalhar em detalhe determinados aspectos, é tão ou mais importante fazer revisões dos aspectos técnicos base.

Recomendo aos meus alunos que, logo após o aquecimento, dediquem 2 a 3 minutos a cada técnica base (legato, staccato, flexibilidade, registo grave, registo agudo, trilos labiais, som bouché, etc...). Desta forma todos os dias se revêm os aspectos essenciais da prática instrumental, sem correr o risco de dedicar demasiado tempo a um deles e fazer com que o trabalho de determinados aspectos fique sempre adiado para dia seguinte, que acaba por nunca acontecer... Existem umas ampulhetas com duração aproximada de 3 minutos que são habitualmente usadas para ensinar as crianças a lavar os dentes durante o tempo recomendado. Usando este acessório na prática instrumental tem os seus benefícios, uma vez que desta forma uma grande sessão de prática pode ser facilmente dividida em pequenas tarefas de 2 a 3 minutos.

Mais uma estratégia para incluir no arsenal de práticas de estudo musical!

As transposições são o deleite de alguns compositores e o tormento dos músicos. Os trompistas são os reis da transposição, mas porquê?
Neste vídeo é explicada a origem das transposições, são apresentadas as várias transposições e diferentes formas de transpor.
Este vídeo requer alguns conhecimentos de teoria musical relativo a armações de clave e intervalos musicais, se é um principiante da trompa, recomendo que veja o vídeo Nome das notas pelo mundo e transposição para principiantes na trompa

 

Pode também praticar as transposições com 2 jogos que disponibiliza no meu site:

Estando a tocar numa trompa Schmid há mais de um ano, chegou a altura de fazer um balanço da experiência.

 

Optei por uma trompa dupla em yellowbrass com uma campânula martelada à mão, sem anel. A primeira sensação que se tem é que se trata de um instrumento muito leve, tanto para segurar como para tocar. É algo que não é de estranhar, uma vez que os seus 2 quilos e 100 gramas dão uma sensação algures entre uma trompa simples e uma dupla (visto que a maioria das trompas duplas pesa cerca de 2,5 kg).

No que diz respeito ao equilíbrio dos diferentes registos, gostei especialmente do facto de, logo desde início, mesmo no registo grave, a trompa apresentar uma resposta fácil, algo que não é comum em algumas trompas novas. Também me impressionou igualmente o facto de com esta trompa conseguir reduzir as mudanças de embocadura no registo médio grave, conseguindo tocar um bom forte sem mudanças, apenas necessitando de mudar o ângulo em dinâmicas extremas. Também estou a tocar num bocal Schmid digital, logo, esta mudança pode dever-se igualmente à combinação entre o bocal e a trompa. Na versão digital dos bocais Schmid, é utilizado um modelo digital, contrariamente ao processo de fabrico tradicional em que é utilizado um modelo físico. Desta forma consegue-se uma maior precisão das medidas do bocal. Nos bocais Schmid existe igualmente uma característica interessante, pelo facto de não possuírem muita massa, parecendo mais pequenos do que são na realidade, uma vez que o contorno externo do bocal é igual ao contorno interno, são bocais muito finos. Esta ausência de massa possibilita que o trompista adicione massa se assim desejar, utilizando pequenos anéis, visto que é sempre possível adicionar massa a um bocal, contudo não é possível retirar. Relativamente a este aspecto o Sr. Schmid é da opinião de que estes pesos apenas servem para corrigir algum defeito de fabrico do instrumento e ,se há algum sitio onde se deve adicionar peso, é precisamente no extremo oposto da trompa, ou seja na campânula e não no bocal.
Diz-se habitualmente em jeito de brincadeira que a afinação “está na marca”, no caso das trompas Schmid, as bombas gerais apresentam pequenas marcas de afinação indicando a posição de equilíbrio entre o lado de fa e si bemol e a posição de meio tom abaixo numa bomba telescópica, que possibilita que o instrumento seja afinado meio tom abaixo (Lá/Mi). Da mesma forma, retirando parte dessa bomba é possível afinar a trompa meio tom acima (Si/Fá#). Esta funcionalidade pode revelar-se útil no caso de transposições, embora nunca tenha chegado utilizar. Permite por exemplo tocar em transposição Mi com posições de Fá ou Mib, ou tocar em transposição Dó ou Sib e soar em transposição Si natural! Uma coisa é certa, acabaram-se os problemas de afinação motivados por uma bomba demasiado curta! Notei que colocando o instrumento numa afinação diferente, algumas notas ficavam desafinadas (por exemplo lás e rés baixos)… dei por mim a baixar e a subir notas que estavam afinadas. Notei que na prática não estava a baixar as notas dependendo do harmónico mas sim os sons em concreto. Baixava automaticamente e inconscientemente, por exemplo os lás, mas como estavam a ser tocados com a dedilhação 2•3, acabavam por ficar demasiado baixos. Requer portanto algum hábito o uso desta possibilidade de usar a trompa em diferentes afinações.


As chaves são mesmo muito rápidas, movendo-se apenas 8mm, apesar disso, numa primeira abordagem pareciam pesadas! Apercebi-me depois que como estava habituado a chaves com uma distância maior, os meus dedos faziam mais força do que o necessário. Personalizei as chaves com moedas de prata, para permitir dar um pouco mais de conforto, oferecendo maior aderência aos dedos, tal como já havia feito anteriormente com a Alexander 403s. 

Relativamente ao estilo de trompa, as Schmid enquadram-se no tipo Geyer com o rotor que faz a alternância entre o lado de fá e de sib situado no extremo oposto ao bocal. Este posicionamento faz com que o ar circule do lado de trompa fá para a frente (no sentido do bocal) e para trás do lado de trompa sib. De notar igualmente o longo leadpipe que produz um som bastante agradável em trompa fá.
Optei por incluir 2 chaves de água (leadpipe e tubo de fá), embora na maior parte das vezes acabe por esvaziar a água rodando a trompa duas vezes em direcção à campânula. O acto de esvaziar a água da trompa pela remoção da bomba geral, requer também algum hábito nas trompas Schmid. Como se trata de uma bomba telescópica dividida em duas partes, notei que inicialmente quando removia a  bomba principal, sem me aperceber, movia também a primeira parte da bomba, fazendo com que ficasse demasiado baixo. Resolvi esta questão usando lubrificantes de densidade diferente, fazendo com que apenas uma das bombas se movimentasse. 


No caso das bombas de afinação de cada um dos rotores, também foi necessário alguma habituação, uma vez que estas têm comprimentos iguais do lado de trompa fá, mas diferem no primeiro e segundo rotores de trompa si bemol. No caso do tubo do 1º rotor, é bastante mais comprido do lado de Si bemol e o do segundo rotor é mais curto. Em especial o segundo rotor implica que se incline a trompa para se ver a parte de trás, onde encaixa a bomba, uma vez que é mais profundo e não possui a extensão que é habitual por exemplo nas trompas Alexander. Como tudo, é uma questão de hábito. 


Quanto aos rotores, são bastante pequenos, têm a particularidade de estarem perfurados, permitindo lubrificar directamente o seu interior e na parte traseira possuem bastante espaço para lubrificar convenientemente os rotores, sem deixar o óleo fugir para os batentes.
No que diz respeito à campânula, o facto de ter optado por uma campânula martelada à mão, sem anel, prende-se com objectivo de mais tarde poder experimentar outras campânulas para ir de encontro a diferentes tipos de música. Neste aspecto as trompas Schmid permitem imensa personalização, com 4 ligas metálicas diferentes, 3 tamanhos, com ou sem anel e com processo de fabrico diferente (martelado à mão ou não). A campânula que escolhi tem apenas o senão de ser bastante frágil, requerendo que jamais se segure a trompa pelo bordo da campânula.
Notei apenas uma questão negativa, pelo facto de terem aparecido algumas pequenas manchas no verniz, alguns meses depois de estar a tocar na trompa. Falei pessoalmente com o Sr. Schmid e ele recomendou-me que fizesse uma pequena incisão com um objecto cortante, o que faria com que as manchas parassem de crescer. Apesar de as manchas terem parado de crescer, creio que não é aceitável num instrumento de topo aparecerem manchas em poucos meses de uso. Estranhei igualmente o facto de o parafuso que segura o braço do rotor possuir ferro, como pode ser comprovado quando se aproxima de um íman de neodymium. Mais nenhum componente da trompa foi atraído pelo íman, contudo resta saber se com o tempo estes parafusos irão oxidar. 

 


Regra geral estou bastante contente, trata-se possivelmente das melhores trompas em que já toquei. Quando se lêem as descrições de Engelbert Schmid, pode parecer exagerado a forma como ele se refere aos seus instrumentos como sendo diferentes. É obvio que qualquer fabricante fala dos seus instrumentos como sendo melhores do que a concorrência. De facto há que “tirar o chapéu” a Englebert Schmid, uma vez que desenhou e construiu os seus instrumentos, de uma forma cuidada e pensada, baseando-se na tradição ao estilo “Geyer”, mas com inúmeras inovações que fazem das trompas Schmid instrumentos que elevam a forma de tocar do trompista, não colocando entraves como é habitual noutro tipo de trompas. A trompa é e sempre será um instrumento difícil de tocar, possivelmente impossível de “domesticar”, contudo as trompas Schmid foram meticulosamente construídas, para facilitar a vida ao trompista para que este se possa concentrar exclusivamente na música e não no equipamento utilizado.

 

Ricardo Matosinhos

 

Tive a oportunidade de dar uma vista de olhos no recém publicado livro “Solo Duet Training” escrito pelo Dr. James Boldin. À primeira vista pensei que se tratava de uma substituição da parte de piano/orquestra por um acompanhamento de uma outra trompa. Devo dizer que foi para mim uma agradável surpresa, descobrir que este livro era muito para além disso. Trata-se realmente de Música de Câmara! Muito melhor do que simplesmente acompanhar, permite aos alunos trocar de partes e desta forma ficar a conhecer melhor as outras vozes musicais. Geralmente os alunos têm tendência a praticar apenas as suas partes e isto significa apenas um lado da história. Tal como um actor, um trompista tem que preparar cuidadosamente a sua parte mas fazer música implica ao mesmo tempo um domínio técnico e a capacidade de contar uma história. Estes duos são um passo à frente para formar músicos e não simplesmente instrumentistas e dão igualmente aos alunos a possibilidade de darem uma espreitadela no que a outra parte "está a dizer", inspirando-os a olhar para o futuro em antecipação ao que farão com piano ou orquestra.

Ricardo Matosinhos

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Este livro foi publicado em 2015 pela Mountain Peak Music