ca.5min

Publicado em Outubro de 2019 na AvA Musical Editions 

 



Esta peça foi escrita em agradecimento ao trompista João Gaspar, por este ter concordado em colaborar com a minha investigação de doutoramento.

Pastoral, como o nome indica, tem o intuito de transportar o ouvinte para um ambiente campestre onde ecoa o som da trompa.

Na secção inicial três pancadas, com o bocal no rebordo da campânula da surdina de bouché, dão início à obra, criando um paralelismo com as três pancadas de Molière. De seguida surgem oscilações que resultam da mão direita na surdina de bouché estabelecem um ambiente de mistério sob o qual surge ao longe o chamamento da trompa. Este tema é de seguida assobiado, o que permite ao trompista remover a surdina de bouché, sendo que a partir daí todos os efeitos fechados são realizados com a mão direita. Esta peça está escrita para trompa dupla, contudo não de uma forma cromática, antes sim, tirando partido de conjuntos de notas numa série de harmónicos, ou seja, considerando uma trompa dupla como um grupo de trompas naturais. A mesma passagem pode ser tocada com a mão na posição aberta, em som bouché e em som de eco, alternando as dedilhações. Portanto significa que as dedilhações indicadas não são opcionais, antes sim uma forma de mudar a tonalidade da trompa natural, recuando ao conceito de trompa omnitónica. Por favor tenha em consideração que as linhas de continuação são usadas nesta peça de duas formas diferentes. Por vezes dizem respeito apenas à dedilhação da mão esquerda a usar numa determinada passagem. Ou seja: por exemplo nos cp.49-50 deverá ser usada a Trompa Mi (F2) com diferentes técnicas de execução relativas à mão direita. Contudo noutras situações, quando tanto a dedilhação da mão esquerda como as técnicas a executar com a mão direita são coincidentes, a linha de continuação aparece entre estes dois elementos (por ex. cp. 51-52). A escrita microtonal corresponde ao 7.º e 13.º harmónicos. As indicações de oscilações com a mão direita na campânula da surdina de bouché são livres, sendo que o número exato de oscilações fica ao critério do intérprete.

Ricardo Matosinhos