Publicado em Novembro de 2018 na AvA Musical Editions 

Estreia dia 03 de Novembro, 18:00, Academia de Música de Costa Cabral (Porto)

ca. 11' 40''

 

Esta obra de carácter programático teve como fonte de inspiração todas as pessoas, que iniciaram a sua formação com a trompa e acabaram por seguir outras áreas, algumas ligadas à música como a composição, outras de temáticas mais distantes e que, de alguma forma, voltaram a ser chamadas por este instrumento, tendo muitas delas acabando por responder ao seu chamamento. Esta resposta ao eco do passado acaba também por, de alguma forma, ser transversal a outras áreas do conhecimento.

Do ponto de vista musical, este eco do passado encontra-se representado na obra através de efeitos de utilização do espaço, em que o som é escutado a diferentes distâncias e em que misteriosas ressonâncias saem de dentro do piano. A obra encontra-se dividida em quatro secções contínuas, sendo que após a segunda um dos trompistas abandona o palco. Na terceira secção o trompista que permanece em palco troca de instrumento, passando para uma trompa natural, em que são usadas apenas as notas presentes na série de harmónicos, sendo que o 7º e 11º harmónicos, habitualmente evitados pela sua afinação, são propositadamente usados, de forma a estabelecer uma relação com a sonoridade primitiva da trompa. O piano é usado nesta secção apenas como ressonância sonora, sendo que esta sonoridade juntamente com o eco apela também à relação histórica da trompa com a natureza. Na última secção o trompista em palco executa um chamamento, que é respondido pelo trompista fora do palco, que vai regressando gradualmente e mostrando assim, simbolicamente, a aceitação do chamamento do passado.

A maioria das peças para duas trompas tende a ser demasiado exigente, incluindo uma tessitura alargada ou uma multiplicidade de extensões de técnica, que as tornam difíceis ou mesmo impossíveis de executar para os alunos. Esta peça foi escrita tendo em mente um espectro alargado de performers e pensada para ser tocada por alunos e amadores. Inclui também conteúdo musical e integridade para honrar a performance por trompistas profissionais. Trata-se, portanto, de um verdadeiro desafio composicional. Como trompista pensei na trompa e em todas as possibilidades de a fazer soar bem com o mínimo esforço possível. Para isso centrei-me na sua tessitura mais característica, usando efeitos especiais assentes na tradição, não requerendo nenhuma técnica especial. Na parte de 1ª trompa existe uma passagem com multifónicos, mas para a qual existe uma ossia, permitindo que a obra seja tocada por todos aqueles que não se sintam à vontade com esta técnica. No caso das vozes mais agudas, essas mesmas passagens deverão ser tocadas e cantadas uma oitava acima. Embora esta peça possa ser tocada inteiramente numa trompa fá, grande parte das passagens mais rápidas foram idealizadas tendo em conta as dedilhações da trompa Si bemol. A terceira secção desta peça foi escrita para trompa natural em Mi bemol. Quem não possuir uma trompa natural poderá executar esta secção usando uma trompa moderna, pressionando a primeira chave do lado de trompa fá. Nesta peça pode-se escutar o espírito heróico e a doçura lírica que caracterizam este instrumento. Tudo isto aliado aos chamamentos e respostas em pares, bem como, à união com a natureza dada pelos ecos e reflexões, fazem desta peça o complemento ideal para um recital com dois trompistas.